Os meus devaneios iniciaram-se no outono. Junto com a chuva,
esvaiu-lhes também um tabu. Eu seria diferente. Quem acovardaria-se diante da
nova realidade?
Alheio a minha própria ingenuidade, daqui partia o maior
dos males. Desbravava aos poucos a vida percebendo precocemente que não deveria
sentir o que sentia, que jamais poderia pensar o que pensava. Ousadia era algo
que permutaria conceitos, mas eu sequer pudera dimensionar o tamanho do
conflito. Era uma criança.
Lembro dessa criança, quase permanentemente no chão, onde
punha em prática suas imaginações tolas. Quase sempre acompanhado de uma sombra
silenciosa, que de tão silenciosa às vezes convencia-me de que estava em uma
grata companhia abundante, que produzia como eu, brincava como eu, fantasiava
como eu. Sinto falta daquela inocência, principalmente enquanto protegia-me das
percepções mundanas.
Poxa, minha adolescência. Difícil explanar. Adoraria que
falasse por mim, porque eu mesmo já desisti de tentar. Posso garantir que
chorei como criança pela criança que não cabia mais em mim. Hão de convir que o
senso-comum denota que a esperança se degenera ao desfalecer, mas no meu caso,
naquele caso, no próprio êxito ela não tinha vida. Aqueles que seriam minha
overdose de inspiração eram os diretamente responsáveis pelo calvário. Eles não
entendem, jamais entenderão. Asseguro e atrevo-me afirmar que prolongar este parágrafo
seria como debater inutilmente estas questões. Jamais entenderão, insisto.
Ainda há pouco estava a pensar no hoje, em minha liberdade. A
sensação de abismo para com a realidade é típica, sei que é, abrange o que
sinto com o que vivo. Anos-luz definiria. Seria como se me perdesse, me
encontrasse e, novamente, me perdesse. Essa continuará sendo a tônica dos meus
dias, até que eu me encontre de uma vez, ou até que o tempo continue sendo
apenas o tempo...